Blues, Patrick Neate 2002 (2001)
Blues (Twelve Bar Blues no original), de Patrick Neate, percorre a vida de Lick Holden, um génio do trompete do início do século XX que o tempo esqueceu, e da demanda de Sylvia, muitas décadas após, pelos avós, e por si, pelas suas origens entre a remota e a contemporânea África, a América, entre New Orleans e Chicago, e Londres. São muitas histórias que se cruzam, muitos personagens, e perdemo-nos com frequência na miríade de relações, nos pequenos dramas e nas pequenas alegrias de que é feito o blues.
O livro, Livro I e Livro II, progride, aliás, para a frente e para trás, como um blues de doze compassos, como o autor esclarece logo na introdução: «a progressão harmónica mais comum em todo o jazz»; e é esse blues que é feito de vísceras, de amor e de morte, de amizade e de sangue, que está marcado no corpo dos protagonistas, o blues e o jazz, a música feita vida, a vida feita música, sente-se a negritude dos personagens, mesmo quando a cor parece enganar.
Blues é um longo épico, bonito e dorido.
Mas deixem-me fazer um comentário sobre o estilo do escritor, e recordemos que estive a ler uma tradução, de Alda Balsa Rodrigues, que eu creio que correcta, mesmo se não conheço o original (e eu também não sou um leitor de inglês).
Eu não sou um fã da literatura moderna, e esta não me encheu as medidas, e estou, repito, a falar apenas do estilo e não da história. Mas o estilo é excessivo; excesso de adjectivos, excesso de metáforas, e excesso de metáforas demasiado óbvias, excesso de palavras; e nenhuma subtileza, faccioso, quase diria, por vezes: quando um facínora se aproxima do herói, ele tem uma cicatriz a rasgar-lhe a cara, olhos pequeninos, de fuinha, e boca num esgar de desdém, com certeza, não há lugar para dúvidas.
E enfim, «...levantavam-se funcionais e poderosos armazéns, como sentinelas às portas do progresso...» ou «...a casa parecia uma jangada flutuando à deriva no meio de uma maré poderosa...», ou ainda, «...um letreiro semidestruído pendia como antecipando uma pedra tumular.», ou ainda «...as palavras dele mal penetravam a pessoa de Sylvia, envolvendo-a num frio cheio de significado que não chegava a fazê-la arrepiar, como uma névoa a formar gotas sobre um impermeável. Sentia-se aérea, imponderável, talvez mesmo flutuante. Era uma sensação desconfortável, de perder o pé, que a deixava ancorada na incerteza do seu interior sem encontrar o fundo» (pgs.386, 387).
Demasiado, digo eu, mas é apenas o meu gosto literário, e eu não quereria desmotivar os meus leitores, porque o livro é bonito.
Twelve Bar Blues ganhou o Prémio Whitbread para o melhor romance de 2001.Blues, Patrick Neate, Gradiva 2002 (Twelve Bar Blues 2001)